terça-feira, junho 07, 2005

O seguinte texto foi concebido em três momentos diferentes: os primeiros 13 parágrafos, ou seja, a quase-integralidade dele, foram escritos num tom analítico e relativamente condescendente, com teor de reflexão. Em um momento de extrema raiva, causada por fatores pessoais e acontecimentos externos, modifiquei o rascunho decisivamente, conferindo um caráter agressivo a trechos já escritos, pela adição de simples termos, palavras ou frases inteiras. Agora, procurando dar-lhe um fim, mesmo que a idéia não tenha sido totalmente exaurida como eu havia previsto, ou sequer concluída, uma vez que minha opinião foi inebriada pela fúria, acrescentei os últimos parágrafos voltando ao tom mais light, já que a raiva não é um sentimento atemporal.

Ora, qualquer pessoa que faz uma redação e quer manter uma linha de raciocínio com o mínimo de coerência teria reescrito o texto a partir do momento em que foi modificado no seu bojo, ou pelo menos mantendo o tom alterado até o fim. Do jeito que ficou, é contraditório em várias coisas, mas amplamente claro, em "lato sensu", pra quem consegue enxergar a idéia central. Eu preferi deixar como está, mesmo porque não tenho pretensões literárias e acho bem mais interessante a título de auto-análise do meu comportamento, ou de como sentimentos extremos refletem-se no meu sarcasmo e agressividade. É mais ou menos como um psiquiatra interpretando seu próprio Teste de Rorschach, guardadas as devidas proporções, óbvio, exceto que as manchas negras tomam formas bem mais significativas.


MENINO PRODÍGIO

A partir de que ponto o reconhecimento da própria inteligência se torna arrogância? O que diferencia a certeza de que outras pessoas menos bem-dotadas do que você têm níveis de intelecto que variam desde a completa ignorância até uma capacidade menor de raciocínio de simples menosprezo e desdém? Acredite, são limites bem tênues. Você pode estar sendo escroto sem perceber. E quer saber? É muito bom ser escroto.

A questão é que a maioria dos seres com inteligência mais evoluída não tem noção do quão ignorante e completamente imbecil é o público comum e mesmo do quanto tal ignorância, muitas vezes, é causada pelo próprio meio e características pessoais de cada um. Em várias ocasiões, nos mais diversos círculos e situações, nos deparamos com alguém que nos surpreende por não corresponder à altura como interlocutor. A vontade que nos acomete é exatamente a mesma de quando ouvimos (ou pelo menos, EU ouço) crianças chorando ou falando em voz alta em ambientes que deveriam estar tranqüilos: quebrar seus pescoços em movimentos rápidos ou socar repetidamente seus rostos até voar pedaço de crânio.

Assim, assistindo a um filme no cinema com alguma referência especial ou mesmo uma comédia com humor mais refinado do que Jim Carrey, por exemplo (não que eu não goste, é uma questão retórica), você pode se pegar rindo sozinho numa sala lotada e ficando indignado. "Mas como assim, ninguém entendeu? Bando de idiotas." Pior, pode passar por louco. Mesmo com a absoluta certeza de que é infinitamente melhor ser rotulado de louco do que se enquadrar no perfil patético de gente "normalzinha", como esse bando de pessoas que freqüenta boates como Nuth, com que você é obrigado a conviver na escola ou que te conta animado de como pegou o menino que toca numa banda de forró, o sentimento de não-adequação, ou pior, de exclusão, é enorme.

Ou, em atuações como DJ, tocar uma determinada música e aparecer alguém solicitando exatamente o mesmo artista que está tocando. Acreditem, de cada 5 pedidos, pelo menos 2 são esses casos. A indignação é ainda maior. A vontade, mais uma vez recorrente, de socá-los até a morte (e, muito provavelmente, violar seus cadáveres - se femininos - logo em seguida) chega aos limites do incontrolável. Mesmo uma simples instrução à empregada que é cumprida às avessas é capaz de nos levar à beira de um ataque de nervos. Talvez por isso as famílias de minhas ex-faxineiras vivam constantemente perguntando de seus paradeiros. Só o quartinho dos fundos sabe.

Não estaríamos, porém, aí sendo arrogantes, pressupondo que as pessoas TÊM a obrigação de saber do que estamos falando ou mesmo porque parecemos compreender algo que lhes passa batido?

Sinceramente? Não sei dizer ao certo. Minha primeira opinião é, simplesmente, que não merece conviver comigo quem não sabe do que estou falando. Ora, pequenas diferenças todos têm, é nesse princípio em que a questão do gosto se baseia, mas incompatibilidades absolutas e não-complementares não merecem sequer uma segunda chance. Ei, fã de axé, morra!!! Pessoa que chama freqüentadores de boates "indie" de "doidões", apodreça no inferno!! Playboys que vão à Matriz (por exemplo), pra ficar com as meninas "loucas" sem pudor, explodam dentro de seus carros importados em acidentes que, de preferência, envolvam todas as suas famílias e eliminem as mais remotas chances de procriarem novamente!!

O universo amostral de "coisas que eu não sei fazer" é muito extenso, longe de qualquer dimensão que eu possa determinar. Dentro dele, estão ainda "coisas que já tentei fazer e não consegui", mesmo porque ninguém sabe realmente o que é capaz de aprender ou assimilar. Esse simples fato já deveria ser suficiente pra que eu me desse conta de que todos temos nossas limitações. Parece simples, mas é desse conceito que advém a humildade. E eu reconheço que não sou humilde. Foda-se quem espera que eu seja.

Se eu fosse humilde, poderia até continuar a compreender as diferenças de padrões de cultura e referências em geral entre mim e as pessoas com quem me relaciono, algumas até 10 anos mais novas do que eu, como sempre fiz, porém não me sentiria frustrado com isso. Até sigo me enganando ou me conformando, como se tivesse encontrado um shrubbery pros Cavaleiros Que Dizem Ni. E quem não faz idéia da citação que acabei de fazer, pode parar de ler por aqui. É, por aí mesmo, cometa suicídio ou passe bem longe de mim, chances are de que você é um merda. Get a fuckin' life!!

Lembro-me de que reclamava com amigos de que uma menina com quem saía SEMPRE respondia a uma citação que eu fazia com um "hein?!", seguido de uma expressão facial confusa. Estes amigos, sim, eram reconhecidamente de mesmo nível de inteligência e referências similares às minhas.

Pois bem, durante uma sessão conjunta assistindo a Kill Bill Vol.2, considerando que:
1 - A sessão era com os amigos, não com a menina;
2 - A opinião dela sobre Kill Bill foi "pô, a mulher é surtada, sai matando geral!"; e
3 - Não, não me preocupo em expor isto aqui, ela não vai ler este texto mesmo, ...
... na cena em que Bill deixa Beatrix nas mãos de Pai-Mei, ela lhe pergunta: "When am I gonna see you again?" (Quando vou te ver de novo?) e ele lhe responde que aquele era o nome da sua canção favorita dos Anos 70. Em seguida, Beatrix emite um "Ahn?" tão déjà vu que NA HORA meus amigos olharam pra mim em uníssono e deram gargalhadas. E eu poderia transpor esta reação ad infinitum a dezenas de relacionamentos e situações, sem qualquer grande alteração.

Mesmo entre indivíduos de mesma faixa etária, podemos nos encontrar em um meio ao qual pertencemos por ocasião (escola, faculdade ou trabalho), mas não por afinidade (amigos, baladas). Aí a coisa piora. As regras de convivência impostas podem nos levar a formar panelinhas, castas e falsos vínculos, o que inevitavelmente conduz à estereotipagem. Daí à comparação de quem é mais inteligente ou com um conhecimento maior ou mais digno (critério que, convenhamos, é sempre mais tendencioso ao auto-favorecimento) é um pulo.

Pois bem, eu vi-me (sim, o impulso frenético de respeitar as regras da Língua Portuguesa fez-me utilizar uma construção que soa como "vime", matéria-prima hedionda utilizada por hippies, uma raça nojenta e filha-da-puta que merece ser morta a paulada em todas as sua ramificações e vertentes) impelido a desfiar todo o meu desprezo, intolerância e veneno contra qualquer pessoa que esteja fora dos níveis de existência que delimitei pra mim mesmo por conta do curso que segui nas últimas duas semanas.

Englobando diretrizes sobre um novo software a ser utilizado pela Fiscalização e que, sem sombra de dúvida, promoverá grande avanço na rapidez das análises e fluxo de trabalho, o curso foi daqueles em que você tem que ter uma certa noção prévia de Informática (em diversos programas) pra absorver e aplicar na prática os procedimentos ensinados. Tudo muito interessante, mas, confrontado com a minha afirmativa de que "a galera antiga, os 'fios desencapados', vão chiar", um colega disse que eu estava sendo arrogante, pois os níveis de contato com a tecnologia são diferentes (os meus e os do pessoal antigo). Bom, em nível de coleguismo, tentei argumentar que o progresso existe para ser absorvido por todos e que quem se sentisse pouco à vontade, que se pronunciasse incapaz de exercer sua função. Mas a vontade mesmo era dizer: "Quem quiser continuar estúpido, que se aposente e deixe de ser um estorvo".

Vale dizer que é nesse mesmo ambiente de trabalho que pratico a gentil arte da condescendência, utilizando-me exatamente dos mesmos estereótipos criados pelo público comum (aquele estúpido do começo deste texto) para facilitar a compreensão alheia e evitar maiores questionamentos de pessoas que não vão entender porra nenhuma mesmo. De que adianta falar de coisas "alternativas", lugares ou músicas "indies", se as pessoas vão continuar na ignorância? Tenho uma colega de trabalho que me chama de "dark". O quão esdrúxulo e retrógrado é isso? Prefiro nem entrar nesse mérito. Digo que vou a "festas de doidão", ouço "rock pesado" e todos os rótulos patéticos por eles criados.

Existe conclusão óbvia para estes pensamentos? Estarei eu tentando elaborar um "mea culpa" por ser diretamente responsável por me relacionar e/ou confrontar com estas pessoas? Não necessariamente. É bom extravasar suas frustrações de vez em quando e reconhecer que o que você espera dos outros não está sempre no lugar e ambiente em que você vive. Não me vejo tendo relacionamentos amorosos com pessoas completamente fora do meu meio, seja a hippiezinha que vai pro forró, seja a patricinha que gosta da Prelude e de andar de carro novo. Colegas de trabalho? Não mesmo!!! Sim, estou me confinando no meu próprio environment, mas reconheço que para se evitar ou ao menos amenizar infelicidades, é o naturalmente óbvio e necessário de se fazer.

Não é de se presumir também que todos no meu próprio meio sejam clones, pessoas com o mesmo conhecimento, as mesmas referências, gostos e pensamentos. A multiplicidade ainda impera no mundinho e as diferenças, até o limite do tolerável, não são impeditivas de afinidades, pelo menos não pra mim. Afinal, ser 100% igual deve ser extremamente monótono. Não preciso de um novo eu. Quero virtudes pras minhas imperfeições, problemas que eu possa ao menos tentar resolver e paciência extrema pra me aturar.
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