terça-feira, dezembro 13, 2005

E foi num átimo de segundo em que eu olhava pra menina ao lado, dançando Sebadoh sem pensar no amanhã, que o tempo parou. E eu me vi estranhamente preso num limbo temporal em que só eu me mexia, sob os olhares inertes e congelados da pista lotada, no silêncio repentino da música que não mais tocava. Um momento imensurável, já que o tempo não era mais tempo, o relógio não mais corria e nem o vento circulava mais. Mas com o mundo em animação suspensa, sumiram de imediato todas as razões de minha ansiedade. O trabalho do dia seguinte, o compromisso inadiável do fim-de-semana, a tensão em ver a pessoa amada com outro, a música ruim que não incitava à dança. Calou-se o bêbado que insistia em perturbar, parou de correr o sangue do dedo cortado pela lata de cerveja, desapareceu a menina que não me queria, cessou a fofoca a me difamar entre pseudo-amigos. Eu não era mais o ex-bêbado, o ex-fotologger, o ex-mulherengo, era tudo, menos o ex-qualquer coisa. Eu continuava, os outros é que pararam. Um momento imensurável, que passou logo em seguida. Ou teriam sido horas, meses, anos depois? Tudo o que sei é que a música voltou a tocar, as pessoas voltaram a dançar e circular, a ansiedade voltou a atacar.

Preciso de mais momentos assim, mesmo que eu envelheça ligeiramente mais rápido do que as outras pessoas congeladas no tempo.

quarta-feira, novembro 16, 2005

É bem sintomático que as primeiras horas de minhas férias, logo após o compromisso familiar de feriado, tenham sido a nerdar online até as 4 da manhã. Mas nada melhor pra atiçar a vontade de atualizar o blog do que uma história tão bisonha quanto verdadeira.

Nomes alterados para preservar a identidade.

14/11 - 21:23 - Av. Brasil - Byron & Aline
No CD player, Jamie Cullum entoando "Get Your Way", com sampler de Allen Toussaint e beats by Dan The Automator.

(...)
Byron: A gente precisa marcar mais encontros na Zona Sul da galera dissidente de Campo Grande.
Aline: Ai, só assim pra me salvar. Não agüento mais certas pessoas. A Verônica, por exemplo. Porra, ela só fala de piru!!!
Byron: hahahahaha, como assim?
Aline: Cara, ela passa o dia inteiro falando em piru, em dar, com um fogo do caralho, aí diz que ninguém come ela, que tá na seca.
B: Ela não tava morando com o Pedro?
A: Eles passaram dois anos juntos, mas tem tempo que separaram. Ela tá morando sozinha no Flamengo.
B: E falando de piru o dia inteiro. (risos)
A:Porra, pior do que isso! Ela passa o tempo todo falando nisso, aí quando vem um, ela foge!!
B: Aaaah, tá de sacanagem!!
A: Não, é sério! Ela tem um problema com sujeira, com higiene. Vive se limpando, tomando banho, entra na neura que tá sempre suja e fedendo. Toda hora!!
B: Puutz... e aí não dá porque vai se sujar?
A: Às vezes ela foge mesmo, mas quando dá, é só comédia. Outro dia ela tava lá no Antiquário, sentada na mesa, contando pra geral o que aconteceu com ela semana retrasada.
B: Ahn...
A: Ela deu pra esse cara na casa dele, aí foi correndo pro banho depois. Tá, maluquice, beleza, mas aí ela saiu e o cara entrou no banheiro. Aí...
B (interrompendo): Opa, eu tô começando a achar que é mais informação do que eu preciso.
A: Não!! (risos) Ouve essa!!!!! O cara entrou no banheiro e ela começou a se secar e enfiou o dedo dentro da buceta e cheirou!
B: Hahahahahahahahahahahahahaha!!!
A: Ela entrou na paranóia que tava cheirando mal!!!!!! Ficou desesperada e foi na cozinha...
B: Hahahahahahahahahaha!!
A: ... aí pegou o detergente, esses detergentes toscos, tipo ODD, sei lá.. Pegou, tacou na esponja e enfiou na buceta, esfregando!!
B: Putaquiupariu!!!! Hahahahahahahahahahahahahahaha !!
A: Aí ficou desesperada depois! "Caralho, como é que eu vou limpar essa merda agora??" E o cara no banheiro!!
B: Pára, tô passando mal!! Hahahahahahahaha!!
A: Porra, pior é ela contando isso pra todo mundo na mesa. O Paulinho levantou na hora e mandou: "É por isso que ninguém te come!! Tu tem que tomar uma escovada é de porrada!! Tu vai ver só, vou te pegar, te jogar na cama e te dar uma foda de jeito, daquelas bem sujas mesmo, gozar na cara, lambuzar!!"
B: Caralho, que baixaria!!! Hahahahahaha!!
A: Sinistro, cara...
B: Porra, mas Pedro era meio sujão, como eles viviam juntos?
A: Ah, ela obrigava ele a tomar banho sempre que trepavam. Antes e depois!! E ela tinha cinco toalhinhas debaixo do travesseiro, uma pra cada foda, pra limpar a porra que caísse.
B: Hahahahahahahahahahaha... porra!!!! essa história merece ir pra internet!!
A: Hahahaha, bota mesmo!! Ai, ai... não agüento!!
B: Pô, mas sério agora, a menina tem um T.O.C. brabo, tem que se tratar.
A: Ah, ela faz terapia, toma Prozac, mas não adianta porra nenhuma. Eu também tenho T.O.C. Se eu subir as escadas do meu prédio, eu subo contando os degraus. Se eu errar um, volto e conto de novo!
B: Hahahahaha, que coisa! "Melhor é Impossível" total!!
A: Puro Jack Nicholson!!
B: Ah, eu também tenho T.O.C. Não saio de casa sem conferir registros de gás e tomadas. Ainda acho que meu apartamento vai pegar fogo um dia e não deixo nada ligado na tomada, só geladeira. E se eu pudesse, desligava também!!
A: Porra, a gente é louco!!!
B: Mas o ODD foi foda!!!
(risos)

quarta-feira, outubro 19, 2005

Eu juro que vou atualizar isto aqui.

terça-feira, junho 07, 2005

O seguinte texto foi concebido em três momentos diferentes: os primeiros 13 parágrafos, ou seja, a quase-integralidade dele, foram escritos num tom analítico e relativamente condescendente, com teor de reflexão. Em um momento de extrema raiva, causada por fatores pessoais e acontecimentos externos, modifiquei o rascunho decisivamente, conferindo um caráter agressivo a trechos já escritos, pela adição de simples termos, palavras ou frases inteiras. Agora, procurando dar-lhe um fim, mesmo que a idéia não tenha sido totalmente exaurida como eu havia previsto, ou sequer concluída, uma vez que minha opinião foi inebriada pela fúria, acrescentei os últimos parágrafos voltando ao tom mais light, já que a raiva não é um sentimento atemporal.

Ora, qualquer pessoa que faz uma redação e quer manter uma linha de raciocínio com o mínimo de coerência teria reescrito o texto a partir do momento em que foi modificado no seu bojo, ou pelo menos mantendo o tom alterado até o fim. Do jeito que ficou, é contraditório em várias coisas, mas amplamente claro, em "lato sensu", pra quem consegue enxergar a idéia central. Eu preferi deixar como está, mesmo porque não tenho pretensões literárias e acho bem mais interessante a título de auto-análise do meu comportamento, ou de como sentimentos extremos refletem-se no meu sarcasmo e agressividade. É mais ou menos como um psiquiatra interpretando seu próprio Teste de Rorschach, guardadas as devidas proporções, óbvio, exceto que as manchas negras tomam formas bem mais significativas.


MENINO PRODÍGIO

A partir de que ponto o reconhecimento da própria inteligência se torna arrogância? O que diferencia a certeza de que outras pessoas menos bem-dotadas do que você têm níveis de intelecto que variam desde a completa ignorância até uma capacidade menor de raciocínio de simples menosprezo e desdém? Acredite, são limites bem tênues. Você pode estar sendo escroto sem perceber. E quer saber? É muito bom ser escroto.

A questão é que a maioria dos seres com inteligência mais evoluída não tem noção do quão ignorante e completamente imbecil é o público comum e mesmo do quanto tal ignorância, muitas vezes, é causada pelo próprio meio e características pessoais de cada um. Em várias ocasiões, nos mais diversos círculos e situações, nos deparamos com alguém que nos surpreende por não corresponder à altura como interlocutor. A vontade que nos acomete é exatamente a mesma de quando ouvimos (ou pelo menos, EU ouço) crianças chorando ou falando em voz alta em ambientes que deveriam estar tranqüilos: quebrar seus pescoços em movimentos rápidos ou socar repetidamente seus rostos até voar pedaço de crânio.

Assim, assistindo a um filme no cinema com alguma referência especial ou mesmo uma comédia com humor mais refinado do que Jim Carrey, por exemplo (não que eu não goste, é uma questão retórica), você pode se pegar rindo sozinho numa sala lotada e ficando indignado. "Mas como assim, ninguém entendeu? Bando de idiotas." Pior, pode passar por louco. Mesmo com a absoluta certeza de que é infinitamente melhor ser rotulado de louco do que se enquadrar no perfil patético de gente "normalzinha", como esse bando de pessoas que freqüenta boates como Nuth, com que você é obrigado a conviver na escola ou que te conta animado de como pegou o menino que toca numa banda de forró, o sentimento de não-adequação, ou pior, de exclusão, é enorme.

Ou, em atuações como DJ, tocar uma determinada música e aparecer alguém solicitando exatamente o mesmo artista que está tocando. Acreditem, de cada 5 pedidos, pelo menos 2 são esses casos. A indignação é ainda maior. A vontade, mais uma vez recorrente, de socá-los até a morte (e, muito provavelmente, violar seus cadáveres - se femininos - logo em seguida) chega aos limites do incontrolável. Mesmo uma simples instrução à empregada que é cumprida às avessas é capaz de nos levar à beira de um ataque de nervos. Talvez por isso as famílias de minhas ex-faxineiras vivam constantemente perguntando de seus paradeiros. Só o quartinho dos fundos sabe.

Não estaríamos, porém, aí sendo arrogantes, pressupondo que as pessoas TÊM a obrigação de saber do que estamos falando ou mesmo porque parecemos compreender algo que lhes passa batido?

Sinceramente? Não sei dizer ao certo. Minha primeira opinião é, simplesmente, que não merece conviver comigo quem não sabe do que estou falando. Ora, pequenas diferenças todos têm, é nesse princípio em que a questão do gosto se baseia, mas incompatibilidades absolutas e não-complementares não merecem sequer uma segunda chance. Ei, fã de axé, morra!!! Pessoa que chama freqüentadores de boates "indie" de "doidões", apodreça no inferno!! Playboys que vão à Matriz (por exemplo), pra ficar com as meninas "loucas" sem pudor, explodam dentro de seus carros importados em acidentes que, de preferência, envolvam todas as suas famílias e eliminem as mais remotas chances de procriarem novamente!!

O universo amostral de "coisas que eu não sei fazer" é muito extenso, longe de qualquer dimensão que eu possa determinar. Dentro dele, estão ainda "coisas que já tentei fazer e não consegui", mesmo porque ninguém sabe realmente o que é capaz de aprender ou assimilar. Esse simples fato já deveria ser suficiente pra que eu me desse conta de que todos temos nossas limitações. Parece simples, mas é desse conceito que advém a humildade. E eu reconheço que não sou humilde. Foda-se quem espera que eu seja.

Se eu fosse humilde, poderia até continuar a compreender as diferenças de padrões de cultura e referências em geral entre mim e as pessoas com quem me relaciono, algumas até 10 anos mais novas do que eu, como sempre fiz, porém não me sentiria frustrado com isso. Até sigo me enganando ou me conformando, como se tivesse encontrado um shrubbery pros Cavaleiros Que Dizem Ni. E quem não faz idéia da citação que acabei de fazer, pode parar de ler por aqui. É, por aí mesmo, cometa suicídio ou passe bem longe de mim, chances are de que você é um merda. Get a fuckin' life!!

Lembro-me de que reclamava com amigos de que uma menina com quem saía SEMPRE respondia a uma citação que eu fazia com um "hein?!", seguido de uma expressão facial confusa. Estes amigos, sim, eram reconhecidamente de mesmo nível de inteligência e referências similares às minhas.

Pois bem, durante uma sessão conjunta assistindo a Kill Bill Vol.2, considerando que:
1 - A sessão era com os amigos, não com a menina;
2 - A opinião dela sobre Kill Bill foi "pô, a mulher é surtada, sai matando geral!"; e
3 - Não, não me preocupo em expor isto aqui, ela não vai ler este texto mesmo, ...
... na cena em que Bill deixa Beatrix nas mãos de Pai-Mei, ela lhe pergunta: "When am I gonna see you again?" (Quando vou te ver de novo?) e ele lhe responde que aquele era o nome da sua canção favorita dos Anos 70. Em seguida, Beatrix emite um "Ahn?" tão déjà vu que NA HORA meus amigos olharam pra mim em uníssono e deram gargalhadas. E eu poderia transpor esta reação ad infinitum a dezenas de relacionamentos e situações, sem qualquer grande alteração.

Mesmo entre indivíduos de mesma faixa etária, podemos nos encontrar em um meio ao qual pertencemos por ocasião (escola, faculdade ou trabalho), mas não por afinidade (amigos, baladas). Aí a coisa piora. As regras de convivência impostas podem nos levar a formar panelinhas, castas e falsos vínculos, o que inevitavelmente conduz à estereotipagem. Daí à comparação de quem é mais inteligente ou com um conhecimento maior ou mais digno (critério que, convenhamos, é sempre mais tendencioso ao auto-favorecimento) é um pulo.

Pois bem, eu vi-me (sim, o impulso frenético de respeitar as regras da Língua Portuguesa fez-me utilizar uma construção que soa como "vime", matéria-prima hedionda utilizada por hippies, uma raça nojenta e filha-da-puta que merece ser morta a paulada em todas as sua ramificações e vertentes) impelido a desfiar todo o meu desprezo, intolerância e veneno contra qualquer pessoa que esteja fora dos níveis de existência que delimitei pra mim mesmo por conta do curso que segui nas últimas duas semanas.

Englobando diretrizes sobre um novo software a ser utilizado pela Fiscalização e que, sem sombra de dúvida, promoverá grande avanço na rapidez das análises e fluxo de trabalho, o curso foi daqueles em que você tem que ter uma certa noção prévia de Informática (em diversos programas) pra absorver e aplicar na prática os procedimentos ensinados. Tudo muito interessante, mas, confrontado com a minha afirmativa de que "a galera antiga, os 'fios desencapados', vão chiar", um colega disse que eu estava sendo arrogante, pois os níveis de contato com a tecnologia são diferentes (os meus e os do pessoal antigo). Bom, em nível de coleguismo, tentei argumentar que o progresso existe para ser absorvido por todos e que quem se sentisse pouco à vontade, que se pronunciasse incapaz de exercer sua função. Mas a vontade mesmo era dizer: "Quem quiser continuar estúpido, que se aposente e deixe de ser um estorvo".

Vale dizer que é nesse mesmo ambiente de trabalho que pratico a gentil arte da condescendência, utilizando-me exatamente dos mesmos estereótipos criados pelo público comum (aquele estúpido do começo deste texto) para facilitar a compreensão alheia e evitar maiores questionamentos de pessoas que não vão entender porra nenhuma mesmo. De que adianta falar de coisas "alternativas", lugares ou músicas "indies", se as pessoas vão continuar na ignorância? Tenho uma colega de trabalho que me chama de "dark". O quão esdrúxulo e retrógrado é isso? Prefiro nem entrar nesse mérito. Digo que vou a "festas de doidão", ouço "rock pesado" e todos os rótulos patéticos por eles criados.

Existe conclusão óbvia para estes pensamentos? Estarei eu tentando elaborar um "mea culpa" por ser diretamente responsável por me relacionar e/ou confrontar com estas pessoas? Não necessariamente. É bom extravasar suas frustrações de vez em quando e reconhecer que o que você espera dos outros não está sempre no lugar e ambiente em que você vive. Não me vejo tendo relacionamentos amorosos com pessoas completamente fora do meu meio, seja a hippiezinha que vai pro forró, seja a patricinha que gosta da Prelude e de andar de carro novo. Colegas de trabalho? Não mesmo!!! Sim, estou me confinando no meu próprio environment, mas reconheço que para se evitar ou ao menos amenizar infelicidades, é o naturalmente óbvio e necessário de se fazer.

Não é de se presumir também que todos no meu próprio meio sejam clones, pessoas com o mesmo conhecimento, as mesmas referências, gostos e pensamentos. A multiplicidade ainda impera no mundinho e as diferenças, até o limite do tolerável, não são impeditivas de afinidades, pelo menos não pra mim. Afinal, ser 100% igual deve ser extremamente monótono. Não preciso de um novo eu. Quero virtudes pras minhas imperfeições, problemas que eu possa ao menos tentar resolver e paciência extrema pra me aturar.

sexta-feira, maio 13, 2005

AND THEY TOOK ME FOR DEAD...

Byron acordou com um sobressalto. Ergueu o tronco da cama, coração batendo forte, boca seca, olhos arregalados. A ação repentina fez logo aparecerem os pontinhos pretos que anuviam a visão e, tão logo a vertigem tomou-o de assalto, ele tombou de volta no travesseiro. Lutou por um pensamento coerente, mas somente fragmentos desconexos lhe ocupavam a mente. "Há quanto tempo estou dormindo?" - foi a primeira frase completa, quase um raciocínio instintivo, frente ao torpor que mantinha seu corpo preso ao colchão. Ensaiou mais uma vez levantar-se, esperando que a tonteira imediata tivesse passado. Quando deu um minuto e a cabeça não rodou, percebeu que podia tentar chegar ao banheiro. Pela luz que entrava através das frestas da cortina, viu que ainda era de manhã. A pergunta ainda martelava dentro de sua cabeça - Quanto tempo? Quanto tempo? - enquanto lavava o rosto e escovava os dentes.

Normalmente, nestes primeiros minutos de despertar de uma suposta longa noite de sono, as memórias dos sonhos ainda estão frescas, por mais ilógicos que tenham sido. A primeira reação é achar graça das partes mais absurdas e tentar encontrar algum significado, alguma mensagem do inconsciente que possibilite uma interpretação. Byron esboçou um sorriso ao lembrar-se de coisas realmente hilárias com que sonhou, mas ficou sério no instante em que percebeu a similaridade entre os três sonhos diferentes que tivera: Smashing Pumpkins. Uma de suas bandas preferidas, ainda assim não fazia sentido figurar três vezes em sonhos distintos, em ocasiões distintas, na mesma noite, mesmo porque não se lembra qual foi a última vez em que a ouviu (com certeza não foi no dia anterior) ou mesmo pensou em qualquer coisa correlacionada a ela.

No primeiro sonho, Byron e mais duas amigas estavam num show da banda e morriam de vergonha porque o público presente era irrisório, meras 10 pessoas, num ginásio gigantesco. A banda estava visivelmente irritada e tocava todas as músicas de qualquer jeito, errando as notas e cantando em linguagem de bebê. De uma certa forma, não foi tão absurdo assim. Já o segundo sonho fora completamente estapafúrdio. Billy Corgan, o vocalista, com uma barba ridícula, tocando com o Matanza, todos eles vestidos de cavaleiros medievais, para uma platéia de porcos. O cheiro era insuportável e o baterista interrompia as músicas - Byron não se recorda a qual das bandas pertenciam - para se coçar, de tanta sujeira. O terceiro sonho parecia mais normal, uma multidão num show e, durante a execução de "Geek U.S.A.", o público subiu no palco por inteiro e a banda fugiu pelos fundos.

O enigma continuava, mas a necessidade mais premente naquele momento não era decifrá-lo e sim descobrir por quanto tempo havia permanecido inconsciente. A última coisa de que se lembrava era estar com Letícia na Funhouse e ela ter desaparecido em pleno ar, como um fantasma. Não se recordava dos acontecimentos posteriores ou sequer como voltou pra casa. O mais natural é que tivesse sido na noite passada, mas, a não ser que estivesse "na mão do palhaço" pelo resto da noite, o que explicaria as vagas lembranças, parecia ter passado tanto tempo que não se lembrava muito bem do rosto de Letícia Frost. Byron decidiu então, logo após um banho quente, utilizar o único recurso que permite aos habitantes da era tecnológica ter contato com o mundo real: checar os e-mails.

Ligou o computador e o chuveiro ao mesmo tempo, mas a curiosidade era tanta que foi logo abrindo sua caixa de e-mails, ao invés de entrar no banho, deixando assim a água correr.

You have 6.258 new messages.

Tomou um susto. "Meu Deus!! Como essa Caixa cresceu tanto??" O simples detalhe da data do computador, à esquerda do monitor, passou despercebido, mas uma segunda olhada deu a Byron a impressão de estar num episódio de Além da Imaginação: 10/09/2004. Um arrepio subiu-lhe a espinha e sua respiração parou por uns 5 segundos. "Não é possível", pensou. Abriu um website qualquer de notícias e confirmou que a data estava correta. À exceção de um caso brutal de amnésia ou uma abdução alienígena, nada explicava sua total ausência do mundo por mais de um ano. "Mais de um ano!", repetiu diversas vezes, soando ainda mais surreal a cada uma delas.

Acordar com confusão mental e surpresas apavorantes não era novidade para um guerreiro da noite como ele. Pelo menos desta vez não havia nenhuma criatura hedionda do outro lado da cama, nem qualquer menina que ele quisesse transformar numa pizza margherita ou fazer sumir como num passe de mágica. Passou a mão na nuca e constatou que também não havia nenhum chip implantado.

Mesmo se houvesse passado um ano numa câmara criogênica, como explicar a casa limpa, água, luz e telefone funcionando, as primeiras coisas que verificou? E como nenhum de seus amigos chamou os bombeiros para arrombarem a porta do seu apartamento, à procura do desaparecido Byron Parker? Dezenas de perguntas sem resposta. E absolutamente nada fazia sentido naquele instante. Era como se sentia, um adolescente de 13 anos confrontado com uma mulher nua. Pasmaceira total. Tudo isso somado a uma certeza apavorante de que se algo o havia despertado de um sono profundo, isto significava que Letícia estava em perigo.

Nem os e-mails o ajudavam a solucionar a questão. O mais recente datava de um mês atrás, sinal de que a Caixa de Entrada havia sido finalmente bloqueada por excesso de espaço ocupado. Vários convites para algo chamado Orkut, que não lhe diziam coisa nenhuma, spams e anúncios de visualização de seu velho Fotolog, serviço que tinha criado de brincadeira e que nunca achou que iria mesmo dar em nada, um site de narcisismo exagerado e tese de mestrado em "porra nenhuma pra fazer", em que só alguém desprovido de cérebro e com baixa auto-estima poderia acreditar que fosse reconhecido e fizesse amigos. Após browsear por todas as páginas, nem em sua correspondência eletrônica Byron conseguiu encontrar uma luz em um ano (Um ano!!!) de escuridão. Antes de cogitar ligar para alguém, no entanto, era melhor encontrar uma explicação plausível, sob pena de passar por louco. Mas só depois de um banho.

A água quente que corria já há 20 minutos enfumaçara o seu pequeno banheiro. O espelho todo embaçado nem lhe permitiu contemplar seu rosto assustado e confuso, mas a quentura da água foi o que precisava pra acalmar a tensão e a sonolência voltar. Saiu em meio à fumaça e, quase sem pensar, olhou novamente para o espelho e escreveu com os dedos:



No momento em que terminou, sentiu-se ridículo. Parecia o menininho de Contatos Imediatos do Terceiro Grau construindo seu montinho de areia, como a materialização de uma visão. O nome, tão recorrente em seus sonhos, não lhe dizia nada. Balançou a cabeça, rindo, e foi pro quarto se vestir.

O pensamento de que algo de ruim pudesse ter acontecido a Letícia, sua alma gêmea, sua cara-metade, o oxigênio que alimentava seus pulmões, estava deixando-o louco. Tentou inutilmente afastar essa idéia, enquanto colocava a calça e tentava aparentar uma pessoa decente, normal, não alguém que se sentia fora daquela realidade incompreensível. Toda a segurança e certeza que nutriam a foditude reconhecida de Byron Parker haviam ruído, um paradigma, quase um dogma, reduzido a cinzas. Quase desejou estar em posição fetal, chamando por mamãe. No momento em que um homem assumidamente sensível e reconhecedor de suas qualidades com o público feminino enquanto não-troglodita / misógino / machista sente qualquer vontade que pode se caracterizar como pura e simples viadagem, é hora de repensar seus valores e questionar seus princípios.

Todos esses questionamentos passaram pelo cérebro de Byron em menos de dois minutos, mas o aftertaste prometia durar pelo restante do dia. Terminou de se vestir e foi conferir no espelho do banheiro se poderia sair na rua sem ser confundido com um junkie. A fumaça já havia se dissipado, mas o que ele escrevera no espelho com o dedo indicador ainda permanecia.

Demorou uns 20 segundos, entre viradas de rosto e mexidas no cabelo, entretanto, para notar a diferença absoluta. A princípio, esfregou os olhos, numa reação normal de quem achava que não estava enxergando direito. Foi na terceira olhada que percebeu claramente que aquilo que havia escrito mudara por completo. No lugar do nome do vocalista dos Pumpkins, as letras haviam dançado, trocado de posição e o que estava bem visível era:



Não sabia se ria ou chorava. A vontade de rir vinha do absurdo do acontecido, um delírio em sua mais pura forma, fruto, provavelmente, de sua imaginação fértil e ainda perturbada pelo despertar cheio de dúvidas e de sua condição de perdido no tempo e espaço. Mas o choro ainda seria plausível se fosse levado em conta seu medo concreto de eventos paranormais, resquício de sua infância de médium e perceptivo ao mundo dos espíritos, ainda mais estando só e atordoado. Só havia uma maneira de prosseguir sem pirar: tentar achar o mínimo de coerência na mensagem como ela se apresentava.

Neste momento tão surreal, tão despido de realidade, tão tênue em sua concepção de sensatez, parece mais do que corriqueiro que se mude e alterne de narrativa, de enfoque, de tempo e pessoa verbal. Sendo assim, eu, Byron, tomo as rédeas deste texto.

"Chamar Gi?" Como assim, chamar a Gi? Gisele, será isso mesmo? Não vejo qualquer sentido em ligar para uma amiga que está a milhares de quilômetros daqui, provavelmente em Londres, onde a vi pela última vez, ou peregrinando pela Europa atrás de raves, pessoas loucas e entorpecentes mil. Já que não tenho sequer a certeza do ano em que estou, como é que eu vou saber onde ela está?

A resposta veio na hora, mas não me agradou nem um pouco.

- Vivian... É pra Vivian que eu vou ter que ligar... Droga!

Vivian era uma menina muito singular na lista de conquistas de Byron. Ao mesmo tempo, na lista de casos mal-sucedidos. O problema de Vivian, basicamente, era a sua atitude com o mundo de uma maneira geral, com as pessoas com quem se relacionava e com o que a vida dela exigia. Por tudo isso, Byron tinha um só adjetivo que a resumia perfeitamente: Intensa. Vivian era intensa. Não intensa da maneira como se deve ser, aproveitando a vida ao máximo, exacerbando todos os aspectos positivos da existência, procurando extrair o melhor de cada situação e sem limites auto-impostos para diversão e relacionamento com amigos e pretês. Intensa daquele jeito "não-tenho-motivo-pra-ter-problemas-mas-sei-que-eles-existem-e-estou-cumprindo-um-papel-importantíssimo-para-o-bem-estar-do-mundo-em-geral". Somando-se essa característica ao frescor dos seus 23 anos, pode-se ter uma idéia do temperamento da pessoa.

Pôs-se então a cumprir a árdua, porém necessária, tarefa.

Linha. Barulho de discagem. Dois toques.

- Alôan ...

Vivian tinha com sobras o que eu acho de mais incômodo no nosso sotaque carioca, aquele arrastar no final das frases.

- Oi, Vivian, tudo bem?
- Quem tá falando? Eu conheço essa voz...
- Bom, existem poucas pessoas no mundo com uma voz tão sexy ao telefone como eu.
(silêncio)
- Ora, ora, quem diria... Com essa voz, metido assim, só pode ser Byron Parker... não acredito...
- Ahhhh... sua perspicácia me comove... Também tô morto de saudades.
- Ah, deixa de ser ridículo! Tem que ter muita cara de pau pra me ligar, do nada, depois de sumir por 1 ano!! O que é, hein?
Pensei em dizer sobre a aparente hibernação, mas aí teria que mencionar Letícia, o que não parecia aconselhável.
- Vivian, querida, eu poderia te dar mil explicações e desculpas, mas a grande verdade é que eu cansei de cockteasers. E você, gatinha, é uma cockteaser de primeira.
- O quêêêê??? Que absuurrrrrrrdo!!! Eu nunca te provoquei!!!! Você me deixou em casa uma noite como se estivesse tudo bem e nunca mais ligou, nem retornou minhas ligações e mensagens! Só faltou dizer que ia comprar cigarros...
- Bom, pra começo de conversa, eu não fumo. Aliás, falando nisso, sabe que isso sempre me encheu o saco em você? Bom, whatever...(pausa) Pois é, então, cansei de submeter o bem-estar de minha auto-estima à sua inconstância afetiva, sua empolgação momentânea e falta de interesse logo em seguida e, principalmente, sua ausência de tesão pela minha pessoa, comprovada pelo fato de que a gente não estava transando at all. Resumindo, a fila andou. Sorry...
- Como você pode dizer isso? Seu grosso!!
- Grosso não, baby, sincero. Mas não foi pra me explicar que eu liguei. É simples: eu preciso encontrar a Gi e você vai me dizer como.
(estupefata) - Você é mesmo uma figuraça, não? Me liga de repente, joga um monte de coisas na minha cara e ainda pede.. não, pior... exige que eu te ajude!!! Ah, mas como você vai se dar mal nessa!! É por isso que eu não acredito mais em homem bonzinho. Na hora de dar o pé-na-bunda, são todos iguais! Eu aqui cheia de problemas, dando tudo de mim...
- Tudo??Pffff....
- Deixa de ser engraçadinho!!! Eu me dediquei, falei bem de você pra todos os meus amigos, até pra minha terapeuta, coloquei todas as esperanças em você e nada!!
- Bom, que eu me lembre, a parte do "nada" veio da sua parte, principalmente na área sexual de nossa história.
- Ah, mas vocês só pensam nisso, é tudo o que tem de importante, nada mais...

Deixei-a tagarelar por um tempo, pensando em como ela conseguia ser irritante quando encarnava a teimosa irredutível, tipo aquelas pessoas que sempre escrevem errado as expressões "há algum tempo" (utilizando "a") e "daqui a algum tempo" (utilizando "há"), são corrigidas, mas mesmo assim continuam insistindo no erro. Mas, inevitavelmente, cansei.

(interrompendo) - Olha, o papo ta ótimo, mas me dá logo esse telefone, porque eu estou meio apressado e...
(interrompendo de volta) - Eu não vou dar telefone nenhum!!!! Você saiu de fininho, agora vai ouvir!!
- Tá bom, a gente brinca de marido e mulher, você fala o que quiser e eu vou agora na Internet mandar por e-mail aquelas fotos suas em roupas inexistentes e poses semi-ginecológicas que eu tirei... E pensando bem nisso, puta que o pariu, você gostava mesmo de provocar à toa, hein?!
- Você jamais faria isso!!!! Você não é louco!!! Não tem coragem!!!
- Baby, pode falar o que quiser, eu faço isso de um proxy e lembre-se que eu não apareço nas fotos... Ok, isso vai de encontro ao meu bom-mocismo e viola meus escrúpulos, mas eu tô numa situação tão surreal que não dou a mínima. Então, engole teu orgulho e, em nome de toda a merda por que você me fez passar pra agüentar os seus caprichos e provocações, me dá logo a porra desse telefone!!!

Nesse momento de fúria, várias cenas de minhas saídas com a Vivian passavam pela minha cabeça. O mais irônico, tristemente irônico, de fato, é que ela me fazia bem, apesar das provocações inócuas. A gente se divertia, ria junto, a parte física era agradável, mesmo com a ausência de sexo, e eu conseguia enxergar a possibilidade de algo mais sério. Mas era exatamente esse pensamento que não tinha reciprocidade, o que me levou a constatar que era uma relação sem futuro, logo, sem motivo pra continuar existindo.

Uma vez fomos ao cinema, era terça-feira e estava praticamente vazio, à exceção de outros 5 casais. Começamos a conversar antes do filme e ela, sem perceber, levantou a voz. Num momento de absoluto silêncio, ela manda a seguinte frase, dentro do contexto, óbvio: "Eu perdi minha virgindade com 19!!" Todo mundo olhou. Eu emendei: "19 anos, não 19 pessoas, gente. Calma". Eu ria com ela, mas ninguém mais parecia achar graça. Esses poucos momentos de empatia eram valiosos, mas não suficientes. Comprometimento, pra mim, sempre foi a base de qualquer relacionamento, em qualquer nível de seriedade que tivesse.

Todas essas divagações ocorreram nos mesmos 10 segundos que Vivian levou pra se recuperar do choque de minha explosão e responder:
- 8835-2853. E não ouse me ligar novamente, Byron.

Desligou na minha cara. Mas eu tinha conseguido o que queria e ainda disse umas verdades que vão deixá-la com minhocas na cabeça por um bom tempo, sem contar o medo de eu realmente publicar as fotos online. Mal sabia ela que já as havia deletado num acesso de raiva. Mas quantas pessoas podem ter essa oportunidade de vendetta, por mais insignificante que seja, e conseguir dizer que aproveitaram? Privilégio de poucos.

Bom, menos um passo difícil a seguir. O próximo seria tentar alcançar a Gi e convencê-la de que eu não estava tomando nenhuma substância alucinógena e vendo mensagens subliminares no espelho do banheiro. Disquei o número que a Vivian me deu e aguardei. Um toque. Dois. Três toques e nada. No sexto, já estava desistindo, quando uma voz feminina atendeu:
- A-lô? (assim, pausadamente)
- Gi??
- BYYYYYRON!!!!!!!! Há quanto tempo, amigo!!!!!!
- Pois ééééé, você sumiu, rodou a Europa, ficou nessa de ir atrás de rave, se esqueceu dos amigos.
- Menino, nem te conto, foi a maior aventura EVER!!! Eu vivia de pegar as roupas abandonadas pelas pessoas nas raves e usando, deixando tudo pra trás, só me apegando às coisas e pessoas que estavam comigo no momento. Eu dormia num lugar, acordava em outro. O pior é que eu não consigo me lembrar do que foi onda de bala e do que foi realidade. Nem sei como consegui voltar pra cá.
- Hahahahahaha, você não tem jeito! E claro que no fim você sempre volta pra casa... Mas me diga, Gi, aconteceu alguma coisa contigo recentemente?
- Baby, o que NÃO aconteceu comigo recentemente? A única coisa de anormal agora é essa normalidade que não passa!
É, foda-se, melhor ser direto logo.
- Mas você não teve, assim, digamos, algum sonho, uma visão, um sinal, que tivesse a ver comigo?
- Ihhhh, Você sempre foi careta, meu filho, deu pra usar drogas agora, é?
- Não, não, mas eu sabia que você diria isso, hehe...
- Bom, não sei do que se trata, mas, infelizmente, reconheço, não tem nada de anormal acontecendo na minha vida.
Dei-me conta, de repente, do quão idiota minha imaginação fértil me havia levado a ser. Era só o que me faltava, imagens num espelho embaçado... Mais um segredo embaraçoso a ser escondido...
- Tá bom, Gi, é besteira minha, deixa pra lá... Bom, vou desligar agora... Adorei falar contigo, menina, vê se aparece pra uma visita.
- Nossa, é mesmo, tem uns dois anos que a gente não se vê, só falando por e-mail. E mesmo você anda sumido online, hein?! O que anda fazendo?
- Você não gostaria de saber, acredite. Quando eu descobrir, te conto.
- Eu, hein?! Cada vez mais enigmático... O mesmo Byron metódico de sempre. Mas é por isso que todo mundo te adora, né?
- Ou não...
- Bom, vai lá, menino, com certeza vou aparecer por aí depois pra colocar a fofoca em dia... Beijão!!!!
- Beijos. Tchau.

Desliguei, resignado com a noção de que a minha senilidade havia sido claramente anunciada: perda de memória, alucinações, confusão mental. Só faltava eu voltar a fazer xixi na cama.

Foi com esse pensamento nada animador que Byron se dirigiu ao banheiro, resoluto de que deveria continuar seus afazeres domésticos e dar seguimento à sua rotina, como se nada tivesse acontecido e a realidade não parecesse um conto de Roald Dahl. Foi olhando novamente para o espelho que decidiu apagar o que tinha escrito com o dedo, como se desfazendo a confusão imaginada. Mas parou, com um susto. Como o freqüentador comum de museus e galerias de arte, que para em frente a um quadro e permanece a fitá-lo como se estivesse tentando entender a magnanimidade da obra do artista (e falhando retumbantemente, já que a maioria dos quadros não tem porra nenhuma de revelador), Byron encarou, imóvel, o novo design que as letras no espelho haviam assumido:



Desta vez, não conseguiu conter a gargalhada. Em meio ao silêncio de seu apartamento, os risos ecoaram de maneira sinistra, como se tivessem ocorrido num velório. A estranheza do momento fez com que Byron recobrasse o estado de alerta e concluísse: Ok, let the game roll, baby! E soube exatamente o que fazer.

Conectado à web, procurou no Google o telefone de Atendimento ao Cliente do IG. De posse deste, pegou o telefone e discou. Ao primeiro som da gravação, ainda relutou em continuar, mas só por um segundo. A voz feminina mecanizada pedia que digitasse seu número de telefone e aguardasse. Dois minutos ouvindo uma versão em midi de Hey Jude, dos Beatles, o que o deixou ainda mais irritado, e a ligação finalmente foi transferida e começou a chamar. Atenderam. Byron resolveu se antecipar:
- Boa tarde. Meu nome é...

A voz rouca soou como uma aparição fantasmagórica:
- Byron. Parker. Agora cale a boca e faça exatamente o que eu disser, se quiser ver Letícia Frost viva novamente.

Ele calou. E ouviu.

Terror.

(CONTINUA NO PRÓXIMO CAPÍTULO)
Site  Meter Clicky Web Analytics